Operação Crédito Oculto: Fisco identifica R$ 11,6 bi em movimentações atípicas
Receita Federal e Gaeco cumprem mandados contra grupo empresarial e gestora Entre; recursos eram usados para ocultar bens e corromper autoridades, diz a Fazenda.

A Receita Federal deflagrou nesta quinta-feira (24.set.2026) a operação Crédito Oculto, terceira fase da investigação Carbono Oculto. Segundo o Fisco, foram identificados R$ 11,6 bilhões em movimentações atípicas em fundos de investimento, contas-bolsão e administradoras. São cumpridos mandados relacionados a 13 pessoas e 19 empresas em 7 Estados, com o principal alvo no grupo empresarial e na gestora Entre.
De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a gestora e os fundos de investimento foram usados para ocultar a compra de uma distribuidora de combustíveis por uma usina de etanol ligada a organizações criminosas. A estrutura recebia recursos de origens diversas, incluindo dinheiro do crime organizado, do comércio clandestino de combustíveis e das próprias usinas. Esses recursos eram utilizados para financiar operações, ocultar bens, fazer remessas ao exterior e corromper autoridades, afirma a Fazenda. A distribuidora teve as operações encerradas por decisão da Justiça.
A estrutura financeira envolvia FIPs (Fundos de Investimento em Participações), fundos multimercado, contas-bolsão, contas gráficas, gestoras, administradoras e bancos. Representantes do setor formal de combustíveis relataram às autoridades que o mercado legalizado estava "sob ataque" do crime organizado. "A gente está falando de estruturas importantes do sistema financeiro que contribuem como instrumentos do crime organizado para ocultar patrimônio e lavar dinheiro", declarou Durigan. A operação é conduzida pela Receita Federal e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo, com participação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
A Carbono Oculto teve três etapas até aqui. A primeira, em 2025, identificou uma usina de etanol pertencente a organizações criminosas e o uso da administradora de fundos REAG para ocultar recursos; a empresa foi posteriormente liquidada pelo Banco Central. A segunda fase, Fluxo Oculto, focou as fintechs, que passaram a ser obrigadas a prestar informações operacionais à Receita Federal e ao sistema financeiro. A terceira, Crédito Oculto, mira estruturas do sistema financeiro utilizadas como instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. "É uma operação muito importante de asfixia ao crime organizado, olhando para o andar de cima e pro envolvimento de estruturas importantes do sistema financeiro", afirmou o ministro.
O Fisco também implementa sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial para identificar anomalias na estrutura de fundos de investimento. Durigan criticou instituições e fintechs que deixam de alertar as autoridades sobre operações suspeitas e defendeu exigências regulatórias como a e-Financeira, que obriga instituições financeiras a informar à Receita dados sobre operações e movimentações de clientes. Em relação ao marco regulatório, o ministro afirmou que, após entendimento com o ministro Flávio Dino, do STF, a Fazenda e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) coordenam a revisão das regras do mercado de fundos. A proposta inclui normas para os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), em análise no CMN (Conselho Monetário Nacional). Procurados, os responsáveis pela Entre e sua assessoria de imprensa não responderam até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada.
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